Areias Vermelhas

Atualizado: 21 de set.



Meu nome é Ethan Morris e estou há oito anos na Inteligência Britânica. Claro que isso não é algo que você possa dizer por aí para impressionar as garotas em um pub. O truque é sempre mencionar que “trabalha para o governo”, e qualquer curiosidade a respeito de suas atividades profissionais vai embora em um piscar de olhos. Há alguns meses fui chamado para fazer parte da “Sessão 06”, um obscuro departamento do Diretorado de Inteligência comandado por uma figura ainda mais obscura, o corpulento ex-piloto da RAF conhecido apenas por “Alpha”. Dizem as boas línguas que Alpha criou a Sessão 06 seguindo algum tipo de inspiração transcendental. Não sei se isso procede, mas também não consigo imaginá-lo com todo aquele tamanho na cabine de um caça AY-19. O homem não parece ser desse mundo.

A Seção 06 está localizada em uma estação de trem abandonada nos fundos de um parque de diversões. Um esconderijo perfeito. Dizem que há uma enorme área em seu subsolo onde são desenvolvidas armas secretas. Minha classificação não permite sequer que eu chegue perto desta área restrita. Mas isso não impediu que eu travasse contato com uma nova ameaça. Ela me causa calafrios até hoje.

Em uma manhã fui chamado à sala de Alpha. Seu porte e voz profunda de início intimidam, mas ele é um homem focado e objetivo. Fez um gesto para que eu sentasse.

- Agente Ethan Morris, temos uma situação inusitada e necessitamos de sua atuação aqui.

- Claro, senhor.

- Há uma movimentação em escalões superiores relacionada a uma invasão.

- Invasão, senhor?

- Exato.

- Por uma... potência estrangeira?

- Não, é mais complicado do que possa parecer de início. Gostaria que você visitasse um endereço em uma vila distante.

- Não entendo, senhor.

Alpha retirou um memorando da gaveta e me entregou.

- Eis o endereço. A única informação disponível é a de que se trata de um hot spot. Vá ao local e registre qualquer tipo de movimentação que julgar anormal.

- Senhor.

Peguei o memorando e me retirei da sala.

Levei ao menos uma hora de carro até meu destino em Leysdown, uma vila com menos de mil habitantes, casas de veraneio e restaurantes que oferecem frutos do mar. Após pedir orientações a alguns moradores encontrei finalmente a rodovia de meu destino, na verdade uma via esburacada que logo se transformou em uma trilha de terra e areia que ladeava o mar.

Depois de muitos solavancos cheguei finalmente ao endereço daquele memorando, um hotel à beira-mar na praia de Shellness. Estacionei e fiquei pensando qual a justificativa que daria para me hospedar sozinho em um hotel fora de temporada. Tive uma ideia. Abri o porta-luvas do carro e peguei minha câmera fotográfica.

Ao entrar cumprimentei o atendente, um homem de barba longa, pele morena e com uns 55 anos. Talvez mais.

- Boa tarde. Um quarto, por favor.

- Boa tarde. Seu nome?

- Maunsell. Guy Maunsell.

- Claro. Esteja à vontade, Sr. Maunsell. Meu nome é Hakthar. Caso necessite de algo é só chamar.

- Muito obrigado.

Ele pegou a chave do quarto e olhou para minha câmera.

- Fotógrafo profissional?

- Sim, designado para uma matéria. Trabalho para a Geographic Review.

- O local é perfeito para um ensaio. Se necessitar temos um barco à disposição.

- Grato. É uma boa ideia.

Subi para meu quarto e coloquei a câmera e minha arma sobre o criado-mudo. O homem engoliu fácil a história do repórter fotográfico. Talvez fácil até demais.

Após o jantar fui olhar a noite a partir da varanda do hotel bebendo uma cerveja. Hakthar se aproximou. Apontei para o mar.

- O que são aquelas luzes?

- É o Forte de Red Sands, uma fortificação construída nos anos 1940 pelo Exército para a eventualidade de uma invasão por mar. Jamais foi utilizada. Nos anos 60 tornou-se um ponto de encontro de comunidades alternativas que estabeleceram ali rádios piratas. Hoje se encontra abandonada.

- Parece ser um bom começo para meu trabalho por aqui.

- Sem dúvida, Sr. Maunsell. Prepararei seu barco às primeiras horas do dia seguinte.

- Grato, Sr. Hakthar.

O homem se retirou. Terminei minha cerveja, observando as luzes no oceano e pensando naquele estranho homem, dono de uma pousada no meio do nada.

--oOo--

No dia seguinte Hakthar conduziu o barco até o Forte em alto-mar. A visão era impressionante. Cerca de meia dúzia de torres erguidas sobre as águas, em estado de quase abandono e que pareciam enormes figuras mecânicas de pé, prontas para o ataque. Gaivotas entravam e saíam das estruturas. Registrei os detalhes com minha câmera. Aproximamo-nos de uma das torres e subimos com cuidado por uma escada de ferro.

A torre possuía dois andares e diversas salas, ainda com algumas mesas e armários. No andar superior havia caixas fechadas, feitas de um material mais recente. Olhei para Hakthar.

- O que há nessas caixas?

- Não faço ideia, Sr. Maunsell. E nem pretendo abri-las. Há o perigo de armazenarem material tóxico e corrosivo.

- Não há nenhuma indicação externa.

- Certamente deixadas aqui antes das normas de regulação serem aprovadas.

- É provável.

Subimos até uma espécie de terraço da torre, onde provavelmente estiveram localizados os canhões do forte. Continuei com minha sessão de fotos, trocando o filme. Hakthar pacientemente me aguardou. Ao terminar o segundo filme pedi para que me levasse de volta.

No hotel pedi a Hakthar para utilizar o telefone.

- Infelizmente as linhas estão desativadas no momento, Sr. Maunsell. Temos um rádio, mas o mesmo se encontra queimado.

- Que pena. Bem, não deixa de ser uma forma de garantir um isolamento total, Sr. Hakthar.

Ele sorriu.

- Sem dúvida, Sr. Maunsell. É digamos parte do encanto do local.

Após o almoço retornei à praia. Usei a teleobjetiva da câmera para observar os arredores. Tudo parecia irritantemente calmo. Certamente tinha em mãos um caso clássico de “má Inteligência”: erro de coordenadas ou excesso de zelo de algum agente. Não havia ali nenhum hot spot. Quanto ao homem, provavelmente era apenas algum hoteleiro esperto faturando com “mistérios” fabricados para turistas desavisados.

À tarde decidi tirar um cochilo. Reconheço que não era uma atitude muito profissional, afinal não estava ali a passeio, mas o clima modorrento do local era um convite ao descanso.

Acordei à noite e desci para a recepção. Não havia ninguém. Saí para a varanda e olhei na direção de Red Sands. Uma espécie de helicóptero sem asas e de formato circular pairava sobre o forte, projetando uma luz azulada. Repentinamente a luz se apagou e o objeto sumiu. Corri para o quarto e peguei a câmera e a arma. O barco ainda estava atracado no cais. Entrei nele e me dirigi ao forte.

Ao chegar a uma das torres subi as escadas. No andar de cima havia caixas novas, várias delas com um símbolo que lembrava a letra grega Lambda. Armei a câmera e comecei a tirar fotos. De repente ouvi uma voz. Era Hakthar.

- Pena que sua câmera esteja limitada a 36 fotos por filme, agente Morris. Temos equipamentos que permitem tirar milhões de fotos. E com uma resolução incrível, acredite.

Olhei para trás. Ao lado dele havia um autômato, um ser robótico metálico que portava um fuzil. O autômato carregava dois cilindros nas costas e emitia sons estranhos. Ele apontou a arma para mim.

- Quem é você e de onde veio, Hakthar?

- Trata-se de uma pergunta com uma resposta um tanto complexa e que exigiria certa elaboração, agente Morris. Não creio que o senhor disponha de tanto tempo assim. Tenha a gentileza de subir ao terraço da torre.

Fiz o que ele me disse, sob a mira do fuzil carregado pelo autômato.

- A Seção 06 perceberá minha ausência e enviará um destacamento para cá o quanto antes, Sr. Hakthar.

- Esta cabeça-de-ponte já está descartada, agente Morris. Uma pena, um local muito bem escolhido. Agora nossa prioridade é nos livrar de seu corpo em alto-mar.

Subi ao terraço e olhei ao redor. Decidi agir rápido.

- Está muito escuro aqui encima.

- Vamos, ande logo!

Fingi um tropeção, o que fez com que um bando de gaivotas levantasse voo e o autômato se distraísse durante uma fração de segundo. Foi o suficiente para que eu pegasse uma barra de ferro do chão e o atingisse com força. Ele reagiu com um movimento brusco e o fuzil caiu ao mar. Repentinamente ele avançou sobre mim com as mãos vazias. Bati com força as costas no chão. Hakthar gritou.

- Jogue-o ao mar! Já!

O autômato ergueu-me do chão. Foi o suficiente para que eu pudesse pegar minha arma e disparar em sua cabeça, que explodiu e soltou nuvens de vapor em todas as direções. Fechei os olhos e gritei de dor.

- AAAHH!

Enquanto o autômato sem cabeça caía ao chão apontei a arma para Hakthar. Ele fez um gesto, levando a mão ao pulso.

- Até breve, agente Morris.

Ele desapareceu em uma nuvem. Fiquei ali por um tempo, desconcertado perante aqueles acontecimentos bizarros.


--oOo--

Ao retornar à Seção 06 fiz um relato minucioso do ocorrido. Alpha já tinha em mãos as fotos reveladas. Perguntei a ele.

- Quem era aquele homem afinal, senhor?

- Estamos ainda lidando com a situação nos altos escalões do governo, agente Morris. Não estou sequer autorizado a informar meus agentes a respeito. Mas adianto: trata-se de uma situação inusitada e que requer maior preparo. Apresente-se ao Departamento de Encriptação de Sinais imediatamente.

Levantei-me imediatamente.

- Senhor.


Durante vários dias tive pesadelos com aquela cena, que retornava noite após noite. Mal sabia que se tratava do início de uma era estranha e de perigo a cada esquina.

--oOo--

BLUE ANGEL é uma série de ficção retrofuturista. Anzhelika Volkova, uma oficial de Inteligência britânica, realiza sua jornada através dos infinitos aspectos da realidade.



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