O Sinal

Atualizado: 8 de mai.



Depto. de Literatura Russa

Oxford

A Professora Irina Pavlova é uma senhora vistosa de seus sessenta anos. Ela nasceu em Vladivostok mas viveu sua infância em Ulaanbaatar, a capital da Mongólia, até emigrar definitivamente com a família para Londres. Ela costuma gesticular muito, mas desta vez estava compenetrada examinando minha prova final do curso de Extensão em Literatura Russa. Seu perfume é agradável e me lembra de certa forma minha professora primária. Ela respirou fundo e fechou sua pasta com meus textos, depois de fazer algumas anotações.

- Sim, sim, Anzhelika Nikolayevna, seu curso está concluído e você foi aprovada com louvor. Мои поздравления!

- Спасибо!

- E quais são seus planos, agora?

- Bem, para ser sincera eu... não sei!

- Decida-se logo, pois sua bolsa de estudos vencerá no próximo mês. Se optar por outra disciplina não ficarei chateada, acredite. Aliás eu não entendo bem essa vontade de vocês aqui no Ocidente de aprender a língua russa. Isso é gostar de sofrer!

Achei a sinceridade dela engraçada.

- Talvez eu retorne ao meu antigo trabalho no governo, mas não tenho certeza. O estado de saúde de minha mãe tem me preocupado...

- Uma situação difícil. E seu pai, o que diz?

- Não tenho contato com ele desde que nos mudamos de Krasnodar. Eu tinha apenas 4 anos.

- O que ele fazia?

- Oficial. Da Força Aérea.

- Entendo.

- Não disse nada à minha mãe, mas há um ano viajei a Krasnodar para procurá-lo. No mesmo prédio.

- E o encontrou?

- Não. Havia apenas uma família no local, que comprou o apartamento de uma corretora. Perguntei à vizinha ao lado, uma senhora de idade. Ela me contou que meu pai simplesmente desapareceu de uma hora para outra.

- Bem, como oficial deve ter sido realocado...

- Visitei sua base aérea. Disseram-me lá que ele se aposentou. Mais nada. Não tinham mais nenhuma informação.

Ela fez um gesto com as mãos.

- Isso está lhe dizendo, Anzhelika Nikolayevna, que é hora de seguir adiante. Definir-se. Ah, se eu ficasse apegada a meu passado estaria até hoje engolindo areia na Ferrovia Transiberiana. Ou sabe-se lá Deus onde... Tire uns dias e pense bem. Se quiser continuar, terei prazer em orientá-la. Tenho livros bem chatos e difíceis em nossa estante para começarmos.

Eu me levantei e apertei suas mãos.

- Obrigada por tudo, professora.

Em casa abri uma garrafa de vinho. Tomei enquanto observava a janela. Senti um vazio interior indefinível, um descontentamento com tudo.

Começou a chover. Olhava as árvores lá fora lutando com o vento. Ninguém parecia vencer. Guardei a garrafa de vinho e fui me deitar.

Sonhei que estava em um país distante. Havia tanques nas ruas e edifícios se incendiavam. A poeira e o cheiro de diesel me turvavam os sentidos. Entrei em um dos prédios e vi um vulto, um homem usando um chapéu preto. Gritei:

- Espere!

O sujeito desapareceu. Caminhei por corredores escuros e cheios de tubulações. Finalmente cheguei a um grande saguão. O homem de chapéu me aguardava. Eu me aproximei e ele me entregou um pedaço de papel. Tentei lê-lo mas não conseguia, minha visão estava embaçada. Acordei agoniada.

Levantei-me e fui até a janela. A chuva havia passado. Mas tive uma visão que me fez duvidar de que estivesse acordada. O homem de meu sonho estava na frente de casa. Ele colocava algo em minha caixa de correio.

Desci rapidamente e fui até a caixa. Havia um rabisco nela, uma letra alfa escrita a giz. Dentro da caixa encontrei um memorando escrito a máquina. Ele dizia:

Bárbara Elliott

London Café

15 de Março, 19 hs.

/FB

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BLUE ANGEL é uma série de ficção retrofuturista. Anzhelika Volkova, uma oficial de Inteligência britânica, realiza sua jornada através dos infinitos aspectos da realidade.

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