Thar Tegthar: "O sacrifício desses homens não foi em vão. Uma nova era se inicia."


Professor Thar Tegthar em um seminário na Universidade de Yontah

Meu nome é Thar Pethar e tenho 76 anos. Como jornalista aposentado, tenho em meu currículo passagens pelos principais veículos de Comunicação de Nopah. Em 2972, d.T., quando estagiava no Diário de Yontah, tive a oportunidade de entrevistar o renomado cientista Thar Tegthar, o criador do Projeto Hyperon. No mês anterior ele havia recebido o Prêmio Thar para o Avanço das Ciências, e por conta disso sua agenda estava cheia. Mas o Professor conseguiu arrumar um horário para mim em um sábado à tarde, um dia quente do 5.° mês. Dirigi-me à Universidade de Yontah e lá ele me recebeu em sua sala lotada de livros e pré-publicações. Na mesa, seu cachimbo e uma garrafa de café, seus combustíveis.


O Professor Tegthar apertou minha mão de maneira firme. Seus olhos eram distantes, quase inexpressivos, e sua face muito séria. Jamais o vi sorrindo. Comecei tentando quebrar o gelo, sem muito sucesso.


- O clima nos castiga este ano, Professor. Sem chuvas neste mês.


- Sei que isso pode soar como uma forma de egoísmo, mas vejo isso de forma positiva, meu jovem. A vedação do prédio não é das melhores e há uma goteira no teto, bem encima de minha mesa.


Ri com sua observação, mas ele continuou impassível. Decidi então iniciar a entrevista de uma vez.


- O que é o Projeto Hyperon, Professor?


Ele ajustou os óculos e iniciou sua explanação.


- O Projeto Hyperon é a maior conquista tecnológica da civilização thareliana. Agora podemos deixar nossa "concha" de espaço-tempo e finalmente explorar outros Universos. Trata-se de um bote salva-vidas para nossa exausta e colapsante sociedade.


- Quais serão os futuros desenvolvimentos deste Projeto?


- Estamos criando tecnologias para o envio de sondas a outros Universos estáveis do Tipo I. Elas irão buscar planetas habitáveis com civilizações humanoides avançadas. Infelizmente estes planetas são extremamente raros. Este tipo de combinação ocorre apenas em um Universo a cada um bilhão.


- Por que necessitamos de um planeta que já possua uma civilização avançada?


- Porque não temos tempo. Necessitamos de estruturas sociais prontas e desenvolvidas. Não queremos um paraíso intocado que nos levaria de volta às cavernas.


- Mas questões éticas estão sendo colocadas...


- Quais questões?


- A eliminação de culturas, genocídios em larga escala...


- O Multiverso é infinito. Portanto existem infinitos planetas adequados às nossas necessidades. Temos apenas de encontrar um deles. Ou talvez dois. As prioridades de Tharelia estão no topo de nossa lista e justificam quaisquer medidas a serem tomadas.


- E qual sua posição a respeito das acusações de utilização de trabalho escravo e uso de terroristas do grupo The Flock como cobaias para os experimentos envolvendo a teleportação?


- Demos aos ativistas do grupo The Flock que cumprem pena em Nopah uma escolha: fazer parte desse grande momento de nossa história ou retornar ao nosso sistema prisional para o cumprimento de sua pena.


- Alguns deles se perderam e não puderam ser trazidos de volta...


- Sinto por estas perdas mas seu destino já havia sido traçado. O sacrifício desses homens não foi em vão. Uma nova era se inicia.


A entrevista foi publicada no Diário de Yontah e ela me rendeu elogios e uma promoção. O Projeto Hyperon se tornou uma realidade, com todas as suas consequências. Em 3005 d.T., como chefe de redação do Diário, encontrei novamente o Professor Tegthar no Centro de Física Teórica, em uma homenagem aos seus 80 anos. Eu o abordei após o evento e fiquei surpreso com seu comentário.


- Sim, eu me lembro de você e de sua observação sobre as chuvas. A goteira aliás foi consertada. Na semana passada.


Ri com isso mas ele se limitou a um movimento com os olhos. Aproveitei e perguntei:


- Professor, olhando o passado, restou algum arrependimento?

Sua resposta me gelou a espinha.


- Nenhum. Faria tudo de novo. Se fosse impedido de utilizar os ativistas, eu mesmo me apresentaria como voluntário para os testes. Sem pestanejar por um segundo.


O Professor Thar Tegthar faleceu no ano seguinte, com 81 anos. Seu legado, o Projeto Hyperon, tornou-se a mais perfeita tradução de nossa civilização: uma história de grandes feitos e de grandes tragédias.

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