Thar de Narah

Atualizado: 25 de mar.




Colônia de Kvashin

Grande Narah, Tharelia

As usinas termoelétricas tharelianas são estruturas gigantescas com centenas de metros de altura. Por questões de segurança a área ao redor de cada uma delas é mantida livre de casas e rodovias. Mas isto não impede que esteja sempre ocupada por garotos jogando futebol.


O futebol thareliano é jogado com um time de 6. Não há goleiro, e o gol é um aro circular de 3 metros de diâmetro. A bola é mais leve e o jogo é mais concentrado nos chutes de longa distância que propriamente no corpo-a-corpo dos jogadores.


Apesar de seus 7 anos, Gunthar é um menino forte e que ajuda seus pais na lavoura depois de retornar da escola. A família possui uma vasta propriedade na Colônia de Kvashin que foi herdada de seus antepassados. As terras, que produzem trigo e possuem uma criação de ovelhas, sempre foram um símbolo de riqueza e prosperidade para a família, mas com o tempo perderam produtividade e importância.


Mas a única preocupação de Gunthar neste momento é com a bola. Ele recebe um passe de seu colega de time e chuta em direção ao aro. A bola passa por dentro da meta.


- EEEEHH! Gunthar!!!


Os colegas de time o abraçam. Mas Gunthar ouve uma voz ao longe que preferia não escutar naquele momento.


- Gunthar! Vamos!


Sua mãe Larthari é uma típica Ortodoxa Erlah, com seu haji negro na cabeça e um vestido de mangas compridas, também negros.


- Ah, mãe!


- Vamos, Gunthar! Vamos almoçar!


O menino pega suas coisas e se despede dos colegas.


- Já falei para você não jogar bola ao lado da usina! Esse ar poluído...


- A professora falou que o ar está ruim em todo lugar.


- Sim, mas aqui é muito pior. Olha seu uniforme como está, todo sujo!


Gunthar dá uns tapas na calça mas não consegue tirar as manchas de poeira. A calça aliás está quase rasgando em alguns pontos graças aos tombos em campo.


Após uma caminhada de meia hora eles chegam à casa da fazenda. Seu pai Dorthar e a avó Elthari os aguardam. Dorthar usa uma barba longa e costeletas que seguem com rigor os preceitos Ortodoxos. Elthari faz os últimos acertos na comida.


Larthari e Gunthar entram. Elthari olha para ele.


- Que menino sujo! Vá lavar as mãos antes de sentar à mesa!


Larthari ajuda Elthari a colocar os pratos na mesa.


- Estava jogando bola, de novo.


- Deixe. Ao menos se distrai um pouco.


Gunthar retorna e todos se acomodam à mesa. O garoto abre uma das panelas. O pai o olha com ar de reprovação.


- Gunthar! Como é que fazemos?


Ele fecha novamente a panela e abaixa a cabeça. Dorthar inicia sua oração.


- No começo o Nazhdar era tudo o que havia. Os Guardiões do Tempo criaram a terra e o mar. A andorinha voou e o primeiro homem despertou. Que Thar de Narah abençoe esta mesa e ilumine nosso espírito.


Todos repetem:


- Thar Shvar.


Gunthar finalmente ataca a panela e se serve da carne cozida com legumes. Dorthar comenta.


- Nesta manhã mais uma ovelha estava morta. As nascentes secaram todas ao sul da propriedade. O pouco de água que nos resta está contaminada. E essa usina, a poluição...


Larthari suspira fundo.


- Por Thar de Narah, até quando?


Elthari olha para ela.


- O Ashtar comentou na Sedrah que Nopahs estão fugindo para este novo mundo, Blue.


Dorthar ri, irônico.


- Sim, os Nopahs são sempre os primeiros a abandonar o barco. Nenhuma surpresa.


Larthari olha para ele.


- Sei de Erlahs que também estão conseguindo esse passe, Dorthar.


Sua mãe olha para ela, com ar de reprovação.


- Mas o que você quer? Abandonar tudo? Nossas terras, o trabalho de seus antepassados?


- Mãe, não demora muito e começaremos a passar fome aqui. Mal vendemos nosso trigo, e a criação serve apenas para o leite e nossa alimentação.


- Hora de arregaçar as mangas, minha filha! Podemos vender queijo para a cidade, pães!


Dorthar balança a cabeça.


- Em Erinah as pessoas hoje só consomem produtos industrializados importados de Nopah. Torcem o nariz para o que fazemos aqui.


Larthari olha para o marido.


- Dorthar, vou conversar com o Ashtar. Quem sabe ele não tenha algum contato? Alguém que nos traga uma boa proposta pela fazenda?


Dorthar concorda, suspirando.


Sedrah de Kvashin

Larthari entra na Sedrah. O Ashtar, com uma longa barba e usando chapéu e vestes negras, acende velas em um altar.


- Thar Shvar, Ashtar.


- Thar Shvar, Larthari.


- Ashtar, necessito de sua ajuda. É sobre a fazenda.


- Na verdade é sobre Blue, não é isso?


- Sim, Ashtar. Quero uma vida melhor para nossa família. Chega de contar os animais mortos e as colheitas perdidas.


- Tem certeza de sua decisão, Larthari?


- Sim, tenho.


- Conheço alguém que pode ajudá-los.


- Muito obrigada, Ashtar. Thar Shvar.


- Thar Shvar, Larthari.



Colônia de Kvashin

O corretor conversa com Dorthar e Larthari na mesa.


- A proposta inicial é de 50 mil tharions. Mas o dinheiro thareliano nada vale em Blue. Garantiremos sua teleportação e mais 5 mil libras para as despesas.


Dorthar balança a cabeça.


- Isso é uma miséria! Essa propriedade vale pelo menos um milhão de tharions!


- Ninguém em sã consciência pagaria isso em uma propriedade na Grande Narah hoje, Dorthar. Seja realista. E veja bem: essa transferência não é oficial. Não há uma política de imigração aberta por parte do governo de Erlah neste momento. Portanto considerem-se privilegiados.


- E aposto que há muita propina a ser paga, é claro.


- Como tudo em Erlah, Dorthar. A começar pela Igreja.


Larthari pressiona os lábios.


- Sim, o Ashtar. Qual a porcentagem dele?


O corretor se levanta.


- Não tenho mais nada a dizer a respeito, Larthari. Volto amanhã com a documentação a ser assinada. Yemith Shvar.


O homem se retira. Larthari olha para Dorthar, que esfrega as mãos no rosto em desespero.



Sedrah de Kvashin


Larthari caminha em direção ao Ashtar.


- Recebemos o corretor ontem, Ashtar.


- Estão satisfeitos com a proposta? Ele é um bom rapaz e...


- Mas é muito cinismo de sua parte, não é mesmo? O senhor é indigno desta casa, em nome de Thar de Narah!


- Eu peço o seu respeito, Larthari.


- Que o senhor não fez por merecer jamais! Todos sabem na Colônia de seus atos corruptos e lascivos! E agora isso!


O Ashtar apaga uma das velas e olha para ela.


- Larthari, pegue sua família e vá viver sua vida neste novo mundo. Considere isso como uma bênção de Thar. Eu sou apenas a ponta, a face visível de uma estrutura carcomida. Esse planeta é moribundo. Deixe-me aqui desfrutando dos prazeres materiais antes que eu e tudo o mais vire pó. Vá, Larthari. Que Thar de Narah ilumine sua alma e a de seus familiares. Thar Shvar.


Larthari não diz uma palavra, apenas olha para o Ashtar e se retira da Sedrah.



Londres, Inglaterra

Universo Blue


Após a teleportação em uma central no interior da Inglaterra a família de Larthari é transportada de trem e ônibus para um ponto de triagem de imigrantes tharelianos. Eles descem e exibem seus documentos aos Hypos, policiais Hyperon que fazem o cadastro dos refugiados.


A área ao redor é repleta de barracas, com tharelianos fazendo seu chá em aquecedores improvisados. O Hypo libera os documentos da família. Enquanto Dorthar ajuda Elthari com a bagagem, Larthari pega a mão de Gunthar.


- Venha, meu filho. Esta é a sua nova terra. Que Thar de Narah guie seus passos de agora em diante.


A família anda entre barracas e refugiados, buscando seu caminho.

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BLUE ANGEL é uma série de ficção retrofuturista. Anzhelika Volkova, uma oficial de Inteligência britânica, realiza sua jornada através dos infinitos aspectos da realidade. Visite o site oficial do projeto:

https://www.blueangelseries.com



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